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Sementeira Direta em Culturas de Outono-inverno

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Marta Manoel
Aposolo-Associação Portuguesa de Mobilização de Conservação do Solo

Introdução

Os sistemas de produção de culturas de outono inverno assentam na sua maioria em práticas tradicionais de mobilização dos solos com recurso a alfaias de reviramento de terras. O reviramento do solo tem as vantagens de enterrar os resíduos da cultura anterior, controlar as infestantes, preparar uma boa cama para a semente e aquecer a superfície do solo, ajudando a germinação e emergência da próxima cultura. No entanto, deixa a superfície descoberta e sujeita à ação do vento e da chuva, o que aumenta a erosão, degrada a estrutura do solo, favorece a compactação do solo e a formação de horizontes impermeáveis que dificultam a mobilidade da água no solo e o normal desenvolvimento radicular. O aumento do arejamento leva a uma rápida mineralização da matéria orgânica que provoca uma diminuição na retenção de água e nutrientes minerais e uma diminuição do poder tampão do solo (resistência à variação do pH).

A incerteza climática e a perca do recurso solo, têm vindo a alertar a população mundial para a necessidade de olhar para a agricultura de um modo mais sustentável. Os agricultores deverão ser capazes de produzir de um modo mais eficiente em termos ecológicos, protegendo o solo, aumentando a reciclagem de nutrientes, a quantidade de matéria orgânica no solo, a sua capacidade de retenção de água e biodiversidade, numa tentativa de tornar a agricultura um sistema mais equilibrado que contribua para a estabilidade e qualidade do ambiente. Neste contexto, a sementeira direta aparece como uma das soluções que contribuem para a conservação dos solos, tendo havido nos últimos anos um recurso crescente a esta técnica, nomeadamente nos países da América do Sul e nos Estados Unidos da América. Na Europa, apesar do crescimento não se verificar ao mesmo ritmo, também se tem notado um crescente interesse pela técnica, interesse esse que, em Portugal, é demonstrado nomeadamente na tendência crescente na adesão às medidas agro- ambientais relacionadas com a proteção do solo.

 

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Fonte: relatórios de execução PRODER (A medida sem. direta engloba a mobilização na zona) 2015: Dados provisórios de candidaturas recebidas, IFAP

 

Por outro lado é cada vez mais importante aumentar a produtividade da terra, e melhorar a eficiência do uso dos fatores de produção. As culturas de outono-inverno em

Portugal, nomeadamente a produção de cereais, está sujeita a alguns constrangimentos nomeadamente no que toca à variabilidade da disponibilidade de água e aos tipos de solos, na sua maioria pouco férteis e com drenagem deficiente. Este aspeto leva a quebras de produção por falta ou excesso de água, condicionando o tráfego nas parcelas quando chove demais e tornando muitas vezes estas culturas um risco em termos de sustentabilidade económica.

Culturas de outono-inverno em sementeira direta

Para ser realizada com sucesso a sementeira direta deste tipo de culturas obedece a alguns critérios, uma vez que não existe mobilização do solo antes da sementeira, sendo a mesma realizada através da biomassa deixada pela cultura anterior. Para tal são utilizados semeadores especialmente concebidos para abrir um sulco, colocar a semente à profundidade desejada, fechar o sulco e promover o contacto entre a terra e a semente.

 

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Sementeira direta de trigo sobre palha de milho
Fonte:APOSOLO

 

Cuidados a ter antes da sementeira:

Assegurar que os resíduos da cultura anterior se encontram uniformemente espalhados na parcela. Se tal não for assegurado, haverá problemas na homogeneidade da profundidade de sementeira, levando a germinações e emergências das plantas pouco uniformes. No caso da cultura anterior ser o milho, os colmos devem ser deixados em pé, uma vez que, nas nossas condições climatéricas, os mesmos dificilmente apodrecem até à sementeira da cultura seguinte e, se estiverem espalhados na parcela, constituem um tipo de biomassa difícil de cortar pelos discos cortadores do semeador de sementeira direta.
Efetuar uma monda de pré-sementeira à base de glifosato e/ou MCPA de modo agarantir o controlo das infestantes nascidas, evitando que estas compitam com a cultura a instalar. A aplicação do glifosato deve ser feita com rigor técnico, tanto no que respeita à concentração da calda, como à maneira como é distribuída. A utilização de marcadores de espuma ou de GPS nos tratores é essencial, para garantir a sobreposição das passagens. Há que ter um cuidado constante com o entupimento dos filtros dos bicos do pulverizador, para não haver falhas na aplicação. O glifosato é de absorção lenta; assim a sua aplicação deve ser feita em dias em que não seja previsível a queda de chuva. No entanto, existem já formulações que funcionam com períodos sem chuva de apenas 12h.
Garantir que o solo não se encontra compactado e que a superfície se encontra regular. No caso de haver compactação, deverá recorrer-se à utilização de uma alfaia de mobilização vertical tipo chisel ou subsolador.
Para evitar a compactação é importante garantir, sempre que possível e aquando da colheita da cultura anterior, que o solo não se encontra com demasiada humidade bem, como controlar, reduzindo-o ao máximo, o tráfego na parcela.
Verificar se o solo não se encontra demasiado frio e húmido, caso em que se deve deixar evaporar o excesso de água.
Muitos dos problemas de germinação em sementeira direta de culturas de outono-inverno resultam de excessos de água no solo na altura da sementeira, condicionando a difusão de oxigénio no solo, oxigénio esse, essencial ao processo germinativo. Por sua vez, a escassez de água, também pode ser determinante no sucesso da instalação da cultura pelo que o agricultor deve saber esperar pelo momento mais adequado para realizar a sementeira.

Cuidados a ter durante a sementeira:

Utilizar um semeador de acordo com as condições de sementeira, condições essas que devem ser aferidas ao longo do tempo. O semeador deve ser fácil de regular, capaz de lidar com a biomassa da cultura anterior, preciso na colocação da semente em profundidade e na linha e de preferência capaz de aplicar fertilizantes. Deverá haver o cuidado de verificar o estado de conservação dos diferentes componentes do semeador, substituir as peças danificadas e lubrificar a máquina de acordo com as instruções do fabricante. O mesmo deve ser regulado para a quantidade de adubo e semente a utilizar.

 

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Sementeira direta de trigo
Fonte: APOSOLO

 

A escolha da semente deve ser feita verificando a sua adaptabilidade à região, a duração do ciclo para a data de sementeira, a sua sensibilidade a pragas e doenças e as suas exigências hídricas e nutricionais. O semeador deve ser regulado para a densidade pretendida em termos de número de grãos por metro quadrado.
Deverá também observar-se o solo e a biomassa da cultura anterior em busca de pragas ou doenças que possam comprometer a próxima cultura (lesmas, alfinetes do solo, cicadelas, roscas, piolhos, etc.), caso em que se deve por a hipótese de realizar um tratamento fitofármaco.
O conhecimento do tipo de infestantes comuns na parcela é de extrema importância de forma a poder prever com antecedência o herbicida a utilizar.
No momento da sementeira deve haver o cuidado de monitorizar a operação de perto: é essencial verificar se o semeador corta os resíduos vegetais afastando-os ligeiramente da linha, se o semeador está a aplicar a quantidade certa de semente e adubo e que a semente é colocada à profundidade desejada (1 a 3 cm para cereais de outono- inverno), devidamente aconchegada ao solo através do fecho do sulco e ainda, se o adubo fica a uma distância de cerca de 2 cm da semente.
A cultura deve ser conduzida de forma a satisfazer as suas necessidades em fertilização, controle de infestantes, pragas e doenças, e colhida na altura e da forma mais adequada

Conclusão

As culturas de outono-inverno podem ser feitas com sucesso recorrendo à técnica da sementeira direta. No entanto, para que tudo corra eficazmente há que ter alguns cuidados especiais como os descritos anteriormente.

A utilização desta técnica permite aumentar a matéria orgânica do solo e consequentemente melhorar a sua fertilidade e retenção de água, contribuindo para a diminuição da erosão e legando às gerações futuras um recurso indispensável para a realização da atividade agrícola, o SOLO.